Nus Se Terra - Nus Se Komunidadi - Nus Se Adranse - Nossa Herança

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"Pintura"

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Comunidade Kristang (cristã)

Atravessei o oceano em direcção ao Oriente.
Cheguei a Malaca onde os portugueses atracaram os barcos há 500 anos.
Aqui continuam bravos e orgulhosos das nossas tradições.

BEM VINDOS(as) AO PORTUGUESE SETTLEMENT

A «portuguesidade»

"Tomara eu que eles sintam a «portuguesidade» daquele Bairro de Malaca".

Reflexões por José Costa Machado (Mestre de danças de folclore no âmbito do nosso Projecto)

O Portuguese Settlement de Malaca é um Kampung, e esta palavra remete para campo, quase com todas as conotações que em Portugal damos à palavra: o campo como lugar exterior à cidade, como lugar onde a casa e a horta se juntam, o campo como o local íntimo e de vida entregue a si própria, o campo donde saem as pessoas para trabalhar na cidade e quando voltam têm mil e um trabalhos para fazer na casa, ou nos campos e campos aqui pode ser o mar, a pesca, a apanha de camarão, o campo com a praça central onde ficam os cafés e casas de pasto, aqui restaurantes, onde fica muito perto o mercadinho, a igreja, o campo dos vizinhos de porta, o espaço de andar à vontade, de parar no meio da rua a conversar, o campo como lugar nosso por oposição a outro campo que seja o lugar de outros, o campo que tem um comité alargado de gestão e organização, o campo que tem grupos folclóricos, com os seus cantores e dançadores e músicos, etc.

Dizer-se que no conjunto da organização política da Malásia este Kampung é um acantonamento forçado, depois de as pessoas terem sido obrigadas a optar por ficar ou partir, também estará dentro da verdade, como dizer-se que este Kampung desempenha no conjunto da organização políica da Malásia um caso bem sucedido de pluralidade, de liberdade, de democracia. É esta última dimensão que mais interessa aos portugueses, sobretudo ao comité de bairro ou painel do regedor, o saberem e o sentirem que, mais para o bem do que para o mal, o bairro português é um caso que demonstra a sociedade plural, o equilíbrio de gestão multiracial, o exemplo da boa vizinhança.

Embora todos saibam quem nós somos,
Nas danças e cantigas que mostramos,
E saibam o sentido que nós pomos
Na língua em que também nos expressamos,
No quadro multi-étnico de Nação
Persistem as cautelas e os receios,
Que fé, língua e cultura são razão
A precisar de números e de meios.
No mar há caranguejos com a cruz
Do padre S. Francisco Xavier
A lenda faz as vezes de outra luz,
Ruínas, só as guarda quem quiser!
No intervalo vai-se até ao mar.
Por toda a parte há gente boa e fraca,
Ninguém é proibido de sonhar
Aqui, no largo Estreito de Malaca.

"Ó i ó ai, beng nos bala
Beng nos canta, ai ai ai
Beng nos canta
Ai ai ai, beng nos bala
"


Um abraço de Malaca.

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Conferência sobre o Legado Português - Sudeste Asiático

De 28 a 30 de Setembro de 2010, Singapura- Malaca
Internacional Conference:
"Portuguese and Luso-Asian Legacies in Southeast Asia, 1511-2011".

In recognition of the half-millennium that has transpired since Afonso de Albuquerque’s conquest of Melaka in 1511, the Institute of Southeast Asian Studies issues this call for papers for a three-day interdisciplinary international conference of about 25 scholars to explore the legacies and evolution of Portuguese and Luso-Asian peoples and communities in Southeast Asia (along the Goa-Melaka-Macau axis) over the past 500 years. Contributors are encouraged to submit paper abstracts whose themes build on recent scholarship that is introducing fresh perspectives for characterizing and contextualizing Portuguese/Luso-Asian experiences and interactions in the region. Papers that also attempt to demonstrate (a) long-term legacies and evolutionary processes, or (b) linkages between the Portuguese/Luso-Asians in Southeast Asia and the larger Portuguese world globally are especially welcome.

Mais informações em:

A nossa Associação Cultural Korsang di Melaka estará presente.

Um olhar sobre Malaca

(continuação)
Agosto de 2010
Por Mário Breda - viajante português em Malaca

E já parti ao fim da tarde, muito mais tarde do que prometera, na minha bicicleta, em direcção ao Bairro Português. Segundo os meus dados, situava-se a uns 3 km a sul da cidade junto ao mar. Parecia ser muito fácil. Mas Malaca é grande, tem muitas estradas e vias rápidas à sua volta, não foi nada fácil pedalar até lá. Pareceram-me muitos mais km.

Finalmente começo a ver a indicação "Portuguese Settlement" e lá cheguei.

É aqui neste bairro, já fora da cidade, que tem vivido a comunidade de origem portuguesa.

A rua principal do bairro é ampla, tem boas casas e bem cuidadas. Passo sob a arcada que ainda convida os visitantes para as "Festa San Juang Festa San Pedro 23-29 June 2010". As festas de São João e São Pedro já tinham passado há um mês mas o arco lá continuava erguido, recebendo os visitantes. Juntamente com o Natal, estes são os maiores festejos do ano. Durante uma semana há procissões, bênção de barcos, arraiais, folclore. Festa de arromba. Como também o são as festas de casamento e outros rituais que dão força e identidade a esta comunidade.
Entrada da Praça Portuguesa

Depois encontro-me com a Bárbara e outra amiga, a Luísa, que também está de visita nesse dia. Veio de Bangkok onde trabalha. E também a Pralom, jovem tailandesa que fala muito bem Português e é amiga da cultura portuguesa. Paramos para conversar com várias pessoas.



A Bárbara conhece todos e fala-lhes no seu dialecto, maneira de "papiar" Português (ou Cristang) a que chamam "Malacan Portuguese". Não é difícil entendermo-nos. Quando o Português de lá e de cá não se entendem muito bem, usamos o Inglês e a conversa flui naturalmente. Algumas das bandeiras portuguesas que tinha levado ofereço-as a algumas destas pessoas que as recebem com enorme orgulho.

O dialecto, derivado do Português antigo, que esta comunidade fala (para além do Malaio e do Inglês) faz-me lembrar o crioulo cabo-verdiano mas sinto que está muito mais próximo do Português que falamos em Portugal. Quase todas as palavras que ouço têm semelhança com palavras actuais ou antigas conhecidas, embora pronunciadas com um sotaque oriental. E se nós falarmos pausadamente e abertamente também nos conseguem entender em quase tudo. A Bárbara que o diga, já que é a única pessoa portuguesa a viver na comunidade, a dar aulas de Português e a desenvolver outras actividades com a comunidade, e que já fala o dialecto local. Depois jantamos "pessi" na esplanada de um restaurante, na grande Praça de Portugal, ali ao lado do mar e do passeio marítimo, tudo num espaço muito bem equipado e moderno.

A mesa enche-se com pratos de caranguejo grande, lulas e outros pratos com peixe cozinhado de várias maneiras, à moda "portuguese". Conversamos muito ao jantar, acompanhados agora pelo Sr. Michael Banerji e por outro elemento da comunidade, o Sr. Nagei Jothi, local e interessado em ouvir e conhecer o Português de Portugal. Tanto um como outro não nasceram no Bairro mas casaram com raparigas dali e logo se "converteram". De facto, quem entra nesta comunidade fica seduzido e vinculado, tal a força da sua identidade e das suas tradições.

E torna-se mais um "Portuguese". É importante clarificar este conceito. E lembro-me desta explicação do Michael. Quando os turistas na cidade de Malaca perguntam "Where are the Portuguese?" e depois vêm visitar o Bairro, colocam a questão outra vez, por não verem nenhum português de feições brancas, "But where are the Portuguese?". E a resposta é "We are the Portuguese" e os turistas lá se resignam à evidência, embora perplexos. De facto, ao longo destes séculos de casamentos mistos, os descendentes dos Portugueses (idos de Portugal mas também de África e da Índia) são aquele povo especial, de feições morenas e alguns traços mais ou menos latinos. Mas nunca usam expressões do género "descendentes de portugueses" ou "euro- asiáticos", dizem sempre "Portugueses".

Afinal o que é ser Português ? Tornou-se muito claro para mim nesse dia. Não é coisa que se descreva, é coisa que se sente. Porque os pais também eram e os avós também. É-se e pronto. Embora essa expressão antes me parecesse forçada, agora que a compreendi também eu vou passar a dizer "Portugueses de Malaca".

Pergunto-me como se pode explicar que uma comunidade de cerca de 2600 pessoas (com outros milhares espalhados pelo resto do país e que se mantêm fieis às suas origens) se tenha conservado ao longo de vários séculos com uma forte identidade que se sustenta se manifesta na língua que falam, na religião católica que praticam, nas festas e rituais etnográficos.

Também poderia haver um "Dutsh Settlement" ou um "English Settlement", já que estes povos estiveram ainda mais tempo e mais recentemente. Mas não há. É uma situação única.

A que se deve ? Quando a cidade foi conquistada pelos holandeses em 1641, talvez a população portuguesa, em grande parte já ali nascida, se tenha concentrado nesta comunidade afastada do centro da cidade. Sendo uma cidade tão importante na época, talvez a população portuguesa fosse em grande número. Talvez nunca ninguém os tenha proibido de falar Português e de praticar o culto católico, numa terra de muçulmanos e de ocupantes calvinistas. Talvez a forte identidade linguística, religiosa e etnográfica deste povo tenha permitido reforçar o seu sentido comunitário perante a passagem de vários ocupantes e regimes.

E por tudo o que senti e aprendi naquele dia em Malaca, "Mutu grandi merseh" a todos vós:
Bárbara, Michael, Nagei e outros amigos de quem não recordo o nome. Quando voltar a Malaca, porque também eu fiquei contagiado, já sei que tenho de ficar muitos dias, porque poucos não chega para tanto.
E o prometido é devido.

Aulas de "Português antigo"

Estão a ser ministradas aulas de "Português antigo", promovidas pela Malacca Portuguese-Eurasian Association - MPEA (Academy of Culture and Arts). Em conversa com Noel Felix de 75 anos, o próprio revela a sua preocupação, querendo ensinar as crianças a linguagem local recorrendo à minha colaboração para o também ajudar a evoluir na língua portuguesa.


A pouco e pouco vão sendo formados líderes que serão os responsáveis pelo futuro educacional da comunidade portuguesa de Malaca. Como resultado visível do trabalho já desenvolvido neste projecto, e do ponto de vista comunitário, as pessoas estão a tornar-se mais activas e sentem-se mais motivadas.


Noel Felix, Filomena e Sara Santa Maria.


Em conjunto com Filomena e Sara, Noel Felix dá as suas aulas todos os sábados das 16h às 17h no Bairro Português de Malaca.



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Um olhar sobre Malaca

Agosto de 2010
Por Mário Breda - viajante português em Malaca

O meu encontro com o Mário em Malaca, sem nos conhecermos anteriormente, foi mais um daqueles encontros para lá do óbvio que me deixou a reflectir. Ambos portugueses sem nunca nos cruzarmos em Portugal, com pessoas amigas em comum e um interesse especial por desenvolvimento comunitário e psicologia. Convidei-o a escrever sobre a comunidade portuguesa de Malaca bem como a sua viagem pela Ásia. Eu costumo dizer: quem passa, esquece ou não esquece.

Hoje, dia 15 de Setembro de 2010, é com enorme orgulho que digo:
Obrigado Mário por não nos esqueceres.


Cheguei a Malaca num Domingo de Julho de 2010, dia 25, ao fim da tarde. A minha viagem de férias tinha como destino a Tailândia onde viajei durante cerca de 3 semanas. Mas, estando no país ali ao lado, não podia perder a oportunidade de ir conhecer Malaca. E foi fácil. Depois de um voo para Kuala Lumpur onde passei a noite e a manhã seguinte, apanhei o monorail aéreo e depois a rede de comboios que me levou à central rodoviária de Bukit Jalil. Dali partem de meia em meia hora autocarros para Malaca (ou Malacca ou Melaka). A distância é de cerca de 150 km, a maior parte dos quais se faz em autoestrada, os restantes em boa estrada. Nós europeus, com os nossos preconceitos etnocêntricos, pensamos que na Ásia está tudo muito mais atrasado que na Europa, mas estamos redondamente enganados. A Malásia é um país desenvolvido, talvez mais que a Tailândia, mas em qualquer um desses países se viaja muito bem, com segurança e conforto.

Ao aproximarmo-nos de Malaca, começamos a ver sinais de que é uma grande cidade, com muitos edifícios altos (o meu hotel tinha 26 andares) que definem a silhueta da cidade mas que em nada interferem com o centro da cidade que mantém os seus edifícios tradicionais.
Logo que me instalo no hotel, apetece-me imediatamente sair. São 5 da tarde, caminho cerca de 10 minutos por ruas com letreiros em chinês de lojas que estão fechadas. Porque hoje é Domingo. E logo me deparo com a Igreja de São Francisco Xavier, construída no século 19, de onde as pessoas começam a sair porque a missa estava a terminar. Apesar de não ter sido construída no tempo dos Portugueses (1511 a 1641, 130 anos), nem dos holandeses que vieram a seguir, mas no tempo dos ingleses que foram os últimos a governar a cidade (e o país, colónia inglesa até à independência em 1957), e apesar de São Francisco Xavier não ser português mas espanhol, sinto que há um pulsar português naquele fim de missa. Mesmo depois de tudo desaparecer, de as igrejas se transformarem em ruínas e de as pessoas se misturarem com os naturais, fica a vivência espiritual que os povos conservam de geração em geração. Já tinha sentido o mesmo em Cochim e noutros lugares em que umas poucas pedras ainda atestam a presença dos portugueses do século 16 (aquela raça de gente que não parece ter saído deste país nem ter nada a ver com os Portugueses de hoje) mas em que a religião católica é o legado mais forte que deixaram. E isso não temos dúvidas de que foram os Portugueses que levaram e ensinaram, quer concordemos ou não.

Penso num homem tailandês, de origem chinesa como tantos outros, com quem conversei na estação de comboios de Nakhom Pathom enquanto esperava o comboio para Kanchanaburi (junto ao rio Kwai) que me perguntou intrigado "por que vai você a Kanchanaburi ?". Disse-me depois que tinha estudado num colégio de missionários católicos em Bangkok, fundado em tempos por missionários portugueses: "Um dia perguntei a minha mãe por que é que sendo quase todos budistas na Tailândia, eu era católico. A minha mãe respondeu: porque também eu sou e os teus avós também eram". E por isso este homem se identificou comigo, me dirigiu a palavra, por pensar que eu, europeu, seria provavelmente também cristão como ele. A religião é, assim, uma marca que fica gravada numa família e que segue de geração em geração, quase fazendo parte do seu património genético.

Sendo a Malásia um país em que predomina a religião muçulmana, em que as mesquitas estão por todo o lado, sentimos ao chegar à cidade de Malaca que estamos em "território" cristão. Mas também chinês, se pensarmos nos belos templos budistas que abundam na "chinatown". A Malásia é um país habituado à presença de muitos povos distintos, convivendo de forma tolerante e fraterna, não só os europeus (portugueses, holandeses e ingleses, por esta ordem de chegada e ocupação) que ali estiveram ao longo dos últimos 500 anos mas também de indianos, chineses e outros povos na actualidade.

Antes da chegada dos Portugueses em 1511 (comemoram-se no próximo ano os 500 anos), Malaca era o maior porto daquela região de transição entre o Índico e o Pacífico, em que do Ocidente chegavam barcos carregados de mercadorias da Arábia e da Índia, e do Oriente vinham barcos carregados do Sião, da China e da Indonésia, trocando as suas mercadorias sem ter de pagar taxas ao porto da cidade. É hoje claro que os Portugueses acabaram com isso tudo. Como não conseguiram a bem, fizeram a mal: dispararam tiros de canhão a partir das caravelas e destruíram casas na cidade afugentando a população e obrigando o sultão a render-se, a entregar a cidade e a retirar-se para o interior do território. E logo os Portugueses construíram uma muralha à volta da cidade para se defenderem e impuseram taxas (de 10% a 20%, conforme a origem das mercadorias) a todas as transacções de mercadorias realizadas no porto de Malaca. Consequências ? O porto franco acabou, a maioria dos mercadores passaram a evitá-lo e a procurar portos alternativos, foi o fim da época de ouro da cidade. E apesar disso tudo, este povo nunca escorraçou os Portugueses, tendo permitido que esta comunidade continuasse a praticar a sua religião e os seus hábitos culturais. Sobre isso, falaremos mais à frente, quando chegarmos ao Bairro Português, conhecido por "Portuguese Settlement".

Para mim é também paradoxal que esta cidade tenha construído uma réplica em tamanho natural da caravela portuguesa "Flora del Mar", usada para transportar o tesouro saqueado à cidade e que depois se afundou no Índico. Aí instalaram o Museu Marítimo, onde Gama e Albuquerque são recordados. É claro que esse acto foi politicamente polémico mas o comité local de Malaca Património da Humanidade assim entendeu que devia ser feito, porque a história não pode ser alterada e há que saber respeitá-la para se ser respeitado.

Voltemos àquele Domingo à tarde de Julho. Depois de ter visitado a igreja de São Francisco Xavier (o grande santo cristão venerado em todo o Oriente, homem culto e viajado que por várias vezes visitou Malaca), virei-me para o lado e lá estava o rio Malaca com o casario baixo nas suas margens, alguns restaurantes e esplanadas, barcos circulando com turistas, várias pontes ligando ao outro lado da cidade. Mais uma agradável surpresa que não esperava.

Ainda tive tempo para continuar o passeio a pé e descobrir o largo central da cidade, enquadrado pelas cores vermelho-tijolo de 3 interessantes edifícios: a Igreja de Cristo; a "Stadthuys" construída pelos holandeses no século 17 como residência do governador e onde hoje está instalado o Museu de História e Etnografia; a torre do relógio construída já no tempo dos ingleses. E lá estão alinhados, à espera de turistas para transportar, os "trishaws" engalanados com flores de plástico garridas, conforme as fantasias do seu condutor; são bicicletas a pedal com uma espécie de "side car" onde se podem sentar duas pessoas. A forma mais romântica de percorrer a cidade.

Mas à noite houve uma surpresa ainda melhor que eu não esperava. Antes de vir, eu tinha estabelecido contacto com a Associação Cultural "Coração em Malaca" e combinado encontrar-me com a Dra. Bárbara Candeias, professora e animadora cultural na comunidade portuguesa. Nunca nos tínhamos visto antes. Ao fazermos o primeiro contacto local por mensagem escrita, informou-me que ia haver uma festa com passagem de modelos com fatos de inspiração tradicional e com actuação de um dos grupos de folclore português.

Que feliz coincidência, no dia da minha chegada! E foi aí que pela primeira vez me encontrei pessoalmente com a Bárbara e que descobrimos também a coincidência de termos sido estudantes contemporâneos na mesma Universidade, onde ela se licenciou em Desenvolvimento Comunitário. Penso que ela não poderia ter encontrado comunidade mais acolhedora e interessante para desenvolver o seu projecto de vida profissional, na qual parece estar como peixe na água. Gostei de testemunhar como as pessoas a acarinham e como ela se sente tão integrada, como se já fizesse parte daquela comunidade.

Nesse serão tive também o prazer de conversar longamente com o Sr Michael Banerji, presidente do comité local de Malaca Património da Humanidade e residente activo na comunidade portuguesa, e de ser contagiado pela sua boa disposição, conhecimentos e empenhamento na promoção da identidade cultural da comunidade portuguesa.
Acabou em beleza o primeiro dia, com a promessa de no dia seguinte visitar o Bairro Português e jantarmos na esplanada da Praça de Portugal.

No dia seguinte (e último, para pena minha, pois Malaca merece muitos mais dias) começei cedo por visitar a Igreja de São Pedro, construída no século 18 no tempo da ocupação holandesa. Depois decidi alugar uma bicicleta para me facilitar as deslocações pela cidade. Passei pelo cemitério holandês, pelo palácio-museu do sultão (reconstruído segundo os desenhos do antigo palácio ardido), pela famosa "A Famosa" ou Porta de Santiago (o que resta da muralha portugueasa), pela colina verde onde se erguem as paredes da Igreja de São Paulo construída pelos Portugueses do século 16. São Francisco Xavier foi aqui sepultado em 1553, tendo os seus restos mortais sido trasladados para Goa mais tarde, onde permanecem. Todos estes locais estão cheios de turistas, especialmente asiáticos mas também muitos australianos e europeus (portugueses são nenhuns ou raros, por estas paragens). Tal como no passado, também hoje muitos povos diferentes se cruzam nesta cidade aberta.

Depois visitei o Museu de História e Etnografia e o Museu Marítimo, ambos bastante bem organizados e documentados. A cidade tem muitos outros museus para visitar mas um dia não chega. De tarde andei pela "China town" que me fascinou com as suas casas dos anos 30 e os seus magníficos templos budistas.

Malaca é, para quem a descobre, uma cidade fascinante. E penso que isso se deve a várias coisas: às reminiscências históricas visíveis, aos seus museus bem equipados e documentados, ao casario que exprime as várias influências arquitectónicas e, sobretudo, à convivência pacífica de vários povos e religiões.

Um olhar sobre Malaca, continua na próxima semana...


Mário, Luísa, Bárbara, Edgar, António

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Encontros para lá do óbvio

No dia quatro de Setembro de 2010, fez um ano que cheguei a Malaca. Durante todo este tempo conheci várias pessoas da comunidade mas não todas. Tenho feito várias reflexões sobre alguns encontros que vou tendo por Malaca, não só com as pessoas locais, mas também com turistas de várias nacionalidades, escritores, professores, jornalistas, antropólogos, amigos etc. e todos eles me transmitem uma espécie de mensagem nas entrelinhas desses encontros, uns mais fugazes que outros.

Chamo-lhes encontros para lá do óbvio:

Um português de Malaca encontrou-me na rua D'Albuquerque e disse:
"You have to meet my 2 sisters and brother because they have special names".
Ao que eu respondi: "Como é que se chamam?"
Ele disse: Jacinta, Lúcia e Francisco.

Estava a beber um café expresso com uma amiga em Malaca e sentam-se na mesa ao lado dois portugueses com câmaras de filmar "xpto". Português que é português começa logo a falar, assim foi, talvez uma espécie de quimica ou curiosidade. Café seguido de jantar, com chuva de verão pelo meio, conversas sobre a comunidade portuguesa, sobre viajar pelo mundo, sobre optar por rumos diferentes. Esses dois bravos viajantes, para mim navegantes destemidos, andam pelo mundo a fazer um documentário sobre Fernão Mendes Pinto.


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Quem é Afonso de Albuquerque?

Pergunta feita (no presente do indicativo), a algumas pessoas da comunidade das quais obtive as seguintes respostas:

Resposta por uma criança de 5 anos: "Albuquerque yosso abo tiu" - Albuquerque é o nosso tio avô.

Resposta por um jovem de 21 anos: "Albuquerque abo tiu di pai" - Albuquerque é o tio avô do nosso pai.

Resposta por um Senhor de 75 anos: "Albuquerque yosso bisabo di pai. Eli ja fika ne Malacca mutu tantu tempu, mutu antigu igual yossa lingu. Eli chegah naki 1511, kum mutu tantu barku. Homi bravu" - Albuquerque é o bisavó do nosso pai. Ele chegou a Malaca há muito tempo, é muito antigo como a nossa linguagem. Ele chegou aqui em 1511, com muitos barcos. Homem bravo.


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Homenagem

ao Bairro Português de Malaca.

Dedico este poema ao Bairro Português de Malaca, escrito por Miguel Torga sobre a cidade de Évora, merecedora de bela descrição, assim como Malaca.

Rendo-me.
Diante disto rendo-me, e digo mais: que vale a pena, afinal, haver história, haver arquitectura, e haver respeito por quantos souberam ser antes de nós bichos e poetas do seu casulo.

E por isto: porque até hoje, em Portugal, só esta terra me deu a justa medida e a justa prova da séria e humana pegada que deixaram no seu caminho nossos pais. Para que surja vivo e sagrado aos olhos o que os meus antepassados fizeram, é preciso que essa lição seja não só testemunho mas destino.
Ora nenhuma cidade nossa, salvo esta, foi capaz de me dizer com pureza e beleza que eu sou latino, que eu sou árabe, que eu sou cristão, que eu sou peninsular, que eu sou português – que eu sou esta mistura de sangue místico e pagão que fez de mim o homem desgraçado que sou.” [Miguel Torga, in Diário, II].

Nikita Felix

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A educação

"Eles não sabem que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da casa, do sapato, dos remédios e da educação dependem das decisões políticas". Bretch

Sly & Sonia - alunos de "português moderno".

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O corpo humano

O que nos faz respirar, comer, andar, sentir, compreender e aprender?
É o corpo.

Gail Alexandra Lazaroo

Estamos a rever o corpo humano através da observação de imagens e troca de palavras. É essencial os alunos perceberem a semelhança existente entre as duas línguas, apesar de serem escritas de forma diferente. De acordo com este factor, as aulas de português são sempre adaptadas, para que melhor seja compreendida a matéria.

Por exemplo: utilizo posters com imagens e etiquetas para que todos os alunos possam ver e participar. No final da aula, fazemos em conjunto uma mini apresentação oral sobre o tema para assimilação de conhecimentos.

Podemos ver na imagem a semelhança entre as duas línguas:



Vídeo: o corpo humano
Clique no play:

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Pedido de Suporte, Apoio e Colaboração



Queridos Amigos de Malaca e Associados,

O Património deixado por Portugal foi uma das razões pelas quais Malaca foi classificada como Património da Humanidade.

Este projecto nasceu em simultâneo com o pedido de apoio social à comunidade e apoio específico aos grupos de dança do nosso folclore, que passados de gerações em gerações se foram adulterando, nomeadamente as letras das canções. Tendo em conta a avançada idade dos líderes dos grupos de dança, que são quatro, é urgente preparar novos líderes e criar novos grupos com os mais novos. O projecto foi também solicitado pelos Portugueses de Malaca, do Bairro Português de Malaca, embora a comunidade já se encontre espalhada por toda a Malásia e Singapura. A grande concentração dos luso descendentes no Bairro Português de Malaca, continuam, com grande orgulho, a manter as nossas tradições e cultura.

São as nossas tradições e cultura que movimentam parte do turismo em toda a Malásia. Eles festejam todas as festas populares desde o São João ao São Pedro... o Entrudo (o carnaval) dançam e cantam o nosso folclore. Tocam harmónica bucal, festejam o Natal com muita intensidade, tal como nós, o que leva muita gente de todos os lados da Malásia a visitar MALACA.


Em toda a Malásia cerca de 200 palavras são faladas e escritas em Português. É costume dizer-se que "cada língua que se perde é um homem que morre". E não podemos deixar que a nossa língua seja esquecida".

É nosso dever informar-vos, com muita tristeza, que o nosso Projecto: "Povos Cruzados - Futuros Possíveis" corre sérios riscos de ser suspenso, por tempo incerto, por falta de fundos.
Gostaríamos de solicitar a vossa colaboração sincera na promoção deste projecto e a vossa assistência na angariação dos meios necessários para o seu correcto desenvolvimento e continuação.
Agradecemos-vos, antecipadamente, com este "Coração em Malaca".

A todos com o coração neste projecto solicitamos apoio para a continuidade do mesmo.
Colabore connosco enviando um donativo para a nossa Associação através de:
Caixa Geral de Depósitos
Nº 0245000195730
NIB 003502450000019573088

Solicitamos que nos informem através do email da Associação.

Associação Cultural Coração em Malaca.

Obrigada por colaborar com o nosso projecto e com a comunidade luso-descendente de Malaca.
Com amizade
A Direcção
Luisa Timóteo


Dear Friends and Associates,



It is with deep sorrow that we have the duty to inform that, at this point of time, our project is in serious risks of having to be discontinued until further notice due to lack of funds. We would appreciate your sincere collaboration in promoting this project and assisting us in gathering the necessary funds to ensure its smooth continuation and existence.
We thank you, in advance, with this sincere "Heart in Malacca".



The General Committee of the Cultural Association "Heart in Malacca"

A nossa "camionete"

Este é o famoso autocarro amarelo que leva a maioria das crianças do Bairro Português de Malaca para a escola.
Um dia, fui de boleia.



No âmbito dessa viagem optei por ensinar aos meus alunos a cantiga que a maioria das crianças aprende em Portugal, nas visitas de estudo.

Vídeo: Cantiga 1,2,3,4,5,6,7. Viva a nossa camionete!

Clique no play:


7,6,5,4,3,2,1. Como nós não há nenhum!

Desenhos elaborados pelos alunos:





Long live our Van. There is no one like us.

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As aulas de Português Moderno



As aulas de Português Moderno (como os meus alunos lhe chamam), já começaram.

Para reforçar os conhecimentos antes adquiridos, foi feita uma revisão com os alunos durante as duas primeiras semanas de aulas.
Os alunos continuam a demonstrar interesse, mostrando-se bastante participativos, fazendo perguntas e respondendo aos exercícios realizados ao longo da aula.
Manifestam também entusiasmo em aprender português (por vezes demasiado), nas actividades propostas.

Vídeo: Português moderno

Clique no play:

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Improviso

Como improvisar uma "bateria" no Bairro Português de Malaca:

1º Imaginação.
2º Encontrar objectos/instrumentos que emitam sons (por exemplo chaves).
3º Experimentar.



4º Funciona.

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Levantamento de palavras e expressões

Do ponto de vista comunitário, quando estamos a desenvolver um Projecto, é essencial a participação de toda a comunidade. O envolvimento e a colaboração das pessoas desde o início levam a melhores resultados, pois é a comunidade que beneficia de toda a aprendizagem. Um dos nossos objectivos é ajudar a manter vivo o crioulo português de Malaca (mostrando, por exemplo, quão semelhantes são por vezes as duas línguas que, mutuamente se mantêm vivas no Bairro Português de Malaca).

O "Português antigo" foi transmitido oralmente de geração em geração entre as familias luso-descendentes e assim por diante. Até aos dias de hoje (século XXI),com o decorrer do tempo, o seu vocabulário tornou-se bastante limitado e a sua pronuncia tem sido modificada.

Segundo o linguista Edgar Knowlton "a linguagem baseada no português dos séculos dezasseis e dezassete abala a imaginação, sendo uma mistura sedutora entre o velho e o longínquo."

Estas são algumas expressões:

Português - "Português" de Malaca - Inglês

Gelo - Pedra friu - Ice

Olheiras - Olo podri - Dark circles

Muito bom - Mutu tantu bong - Very good

Cidade - Sidadi - City

Bicicleta - Kabalu di ferru - Bike

Estrela cadente - Strela Kum ku Kumpridu - Shooting star

Avião - Barku abua - Plane

Sapato -Sapatu - Shoe

Coração - Korsang - Heart

Filho bastardo - Filo tras di porta - Bastard sun

Coma - Pirigu di Motri - Coma

Bem vindo - Beng vindo - Welcome

Boa manhã - Bong pamiang - Good morning

Bom dia - Bong dia - Good day

Bom meio dia - Bong midia - Good noon

Boa tarde - Bong atardi - Good evening

Boa noite - Bong anoiti - Good night

Olá, tudo bem? - Olah, teng bong? - Hello, how are you?

Tudo bem - Yo teng bong - I am well

Obrigado - Mutu grandi merseh - Thank you

Onde vais? - Ondi ta bai? - Where are you going?

O que estás a comprar? - Ki bos ta kompra? - What are you buying?

Eu estou a comprar peixe e carne - Yo ta kompra pesi kum karni - I am buying fish and meat

Qual é o teu nome? - Ki bos sa nomi? - What is your name?

O meu nome é Pedro - Yo sa nomi Pedro - My name is Pedro

Quantos anos tens (idade) ? - Kantu idadi bos teng? - How old are you?

Eu tenho 30 anos - Yo teng trinta anu di idadi - I am 30 years old

Onde moras? - Ondi bos fika? - Where do you live?

Eu moro no Bairro Português de Malaca - Yo te fika na Bairro Portugues di Malacca - I live in the Portuguese Settlement

Eu vou trabalhar - Yo bai sebrisu - I am going to work


Mais expressões e palavras estão a ser registadas.

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Intercâmbio Cultural de Postais

"A IMAGEM NÃO PODE MUDAR A REALIDADE, MAS NÓS PODEMOS MOSTRÁ-LA". Fred McCullin

Cattelina Di Costa - "pintura" saltitante ao meu alcance.


Vivemos numa sociedade onde a informação cultural é-nos fornecida através de fotografias e imagens. A ideia de desenvolver um Intercâmbio Cultural surge no âmbito das aulas de português, entre outras actividades educacionais.

Aliado ao nosso Projecto Povos-Cruzados, o objectivo é realizar um Intercâmbio Cultural de troca de Postais, entre estudantes de Portugal (de várias idades) estudantes de Malacca (do Bairro Português) e outras pessoas que têm colaborado no nosso Projecto.

Os postais além de serem considerados uma imagem turística, representam também o património de uma cidade.

Através deste intercâmbio será possível criar uma nova fonte de motivação para a aprendizagem da língua portuguesa em Malaca, bem como o reconhecimento das tradições e cultura de cada País.

Brevemente mais informações.

Fotografia por Tan Yan Soon (repórter de Singapura).

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Jovens cantam músicas tradicionais

A música "O malhão", é uma, entre outras músicas tradicionais portuguesas interpretadas no Bairro Português de Malaca, em ambiente de convívio.
A composição das letras e a melodia são tocadas de forma diferente, à moda deles, com criatividade e inovação.

Clique no play:

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Melaka World Heritage City

O Património deixado por Portugal foi uma das razões pelas quais Malaca foi classificada como Património da Humanidade. Hoje dia 7 de Julho de 2010 celebra-se o seu segundo Aniversário em Malaca.
Sendo portuguesa e estando a coordenar o Projecto Povos-Cruzados no Bairro Português de Malaca, fui convidada pelo Regedor Peter Gomes a estar presente no segundo aniversário "Melaka World Heritage City".

"Num comunicado de imprensa divulgado pela UNESCO no dia 7 de Julho de 2008, Malaca (Melaka na actual denominação malasiana) e George Town surgem lado a lado como «cidades históricas dos Estreitos de Malaca (Malásia)», que «se desenvolveram durante 500 anos de comércio e trocas culturais entre o Oriente e o Ocidente», criando uma «herança multicultural específica». Malaca e George Town, acrescenta o Comité do Património Mundial da UNESCO reunido no Quebeque (Canadá), «constituem uma paisagem urbana arquitectónica e cultural única sem paralelo na Ásia Oriental e do Sudeste»". Instituto Camões

"On 7 July 2008, Melaka was declared a World Heritage City by UNESCO. Its heritage buildings, cultural enclaves and places of worship are visited by history buffs and tourists from around the globe. Participate in the second anniversary celebrations to commemorate the historic occasion.

Melaka
and George Town, historic cities of the Straits of Malacca (Malaysia) have developed over 500 years of trading and cultural exchanges between East and West in the Straits of Malacca. The influences of Asia and Europe have endowed the towns with a specific multicultural heritage that is both tangible and intangible. With its government buildings, churches, squares and fortifications, Melaka demonstrates the early stages of this history originating in the 15th-century Malay sultanate and the Portuguese and Dutch periods beginning in the early 16th century. Featuring residential and commercial buildings, George Town represents the British era from the end of the 18th century. The two towns constitute a unique architectural and cultural townscape without parallel anywhere in East and Southeast Asia". By UNESCO

mais informações em:
http://www.mbmb.gov.my/

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O regresso a Malaca

"as palavras não são actos".
"words are not acts".
"palabra ki empodi fazeh"
Shakespeare


Noel Felix

O Regedor Peter Gomes & Michael Banerji


Cypriano De Costa & Jothi Nagei


Agnes Fernandes

Patrick Monteiro



Cattelina De Silva

George Alcantara


Agustine Alcantara

Clifford Lazaroo


Depois de dois meses em Portugal, regressei a Malaca.
O trabalho desenvolvido pela Associação Korsang di Melaka, no percurso pelos diversos locais em que me foi dada a oportunidade de expor o nosso Projecto POVOS CRUZADOS:FUTUROS POSSÍVEIS, deixou-me mais consciente, confiante e deu-me forças para continuar.

O apoio e envolvimento de todos os que nos receberam deram-me a conhecer o quanto ficaram sensibilizados pelo Projecto que já vem angariando associados, instituições, entidades e pessoas. Esta era uma realidade que não sabia ao certo a sua dimensão.
Transmitir estes testemunhos em Malaca foi mais uma riqueza acrescida, que irá passar de geração em geração. Na certeza do engrandecimento entre as relações Portugal/ Malásia/ Malásia/Portugal.
Um obrigado a todos ou mutu grandi merseh a tudu genti.

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Pegadas de Malaca em Freixo-de-Espada-à-Cinta


Uma pedra cravada no chão em Freixo-de-Espada-à-Cinta, que me chamou a atenção onde está escrito "Os Simples - 1892".

Uma Terra longínqua desenhada no mapa que acarreta pegadas e histórias de Malaca com um passado marcante. Um lugar que considero sagrado pelo seu significado, pela sua energia e beleza rara.

Começo com o testemunho de José Costa Machado que nos guiou pelas tumultuosas estradas até Freixo-de-Espada-à-Cinta.
"No dia 19 de Maio de 2010, fomos a Freixo-de-Espada-à-Cinta onde nos esperava uma recepção inesquecível. Manuel Bosco Lázaro, cuja vinda a Portugal se deve a dois mecenas e ao apoio da Associação Coração em Malaca, fazia questão de visitar as irmãs do padre Joaquim Pintado, natural de Freixo e que fora missionário e pároco no Bairro Português de Malaca (1948-1975), pessoa a quem ele deve toda a sua educação e toda a sua formação como animador cultural.

As duas irmãs do Padre Pintado, falecido em 1997, a D. Aida e a D. Lurdes, conservam bem viva a memória do irmão e de todos os seus trabalhos pelo Oriente.

A D. Lurdes viveu 20 anos em Malaca com o irmão e reconheceu o Joe Joe, como chamou a Lázaro assim que o viu e atentou nele. D. Lurdes está à direita e tudo perguntou a Joe Joe, pela esposa, pelos filhos, pelos amigos, por casas e por vizinhos.
Foi uma saudade viva, uma emoção indescritível, um momento porventura único e irrepetível.
Como foi emotivo outro momento, já naquela fase de uma visita em que o tempo se esgotava e o regresso a Braga se fazia tarde, por compromissos já assumidos, quando Papa Joe encontrou o senhor Francsico, sobrinho de outro padre, o Padre Sendim, que estivera também em Malaca e que lá falecera.
Dois homens que se abraçaram em plena rua, chamando um pelo outro, reconhecendo-se após 11 anos, por este sobrinho, Francisco Sendim, profissional de barbearia em Freixo, ter ido a Malaca recolher as cinzas de seu tio e trazê-las para Portugal.
Entretanto foramos recebidos pelo senhor vice-presidente da Câmara e tirámos a fotografia.

Foi uma porta que se abriu, numa cidade toda recheada de memórias do Oriente.
Fomos guiados pelo professor Jorge Duarte aos dois locais de memória urgente que levávamos: a casa de D. Lurdes e o cemitério. Mas este encontro com o guia foi outro deslumbramento, quer pela síntese de vistas e de momentos históricos, quer pelas palavras pausadas e amadurecidas de projectos passados, presentes e futuros.

Jorge Duarte é um fazedor de memórias, quer organizando-lhes os espaços físicos de permanência, quer fazendo delas um levantamento sempre mais descritivo e rigoroso. Pelo meio e pelo caminho foram ficando lamentos de alguma insdisciplina contemporânea sobre pessoas, bens, serviços, ideias, pedras, cacos, que nos garantiram até hoje este tempo em que andamos.

A ideia de um museu do missionário merece-a Freixo de Espada-à-Cinta, precisamos todos nós mais dela, hão-de requerê-la como urgente os governantes, por mais dados que se quieram fazer passar pelos critérios do relativismo cultural ou do jacobinismo de trincheira.

No cemitério estão os restos mortais de dois grandes missionários do Oriente, o padre Manuel Joaquim Pintado e o Padre Augusto Manuel Sendim, mas também o padre Massa, padre em Macau mas que Manuel Bosco Lázaro também conheceu pessoalmente.
Foram breves as horas que passámos em Freixo, idos de Braga e a ela regressados por imperativo de actuação do «grupo do mestre», ou seja, por causa de uma actuação que a Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», de que faço parte, tinha marcada em Barcelos, para a ordem local dos advogados, actuação essa que Papa Joe queria presenciar e para a qual foi mobilizado, absolutamente surpreendido, tendo tocado connosco.

Apresentei-o com pompa e circunstância, momento único para todos e ele, munido da sua viola, cantou e tocou. Dançámos uma cantiga sua, o «Bira di bairu português», uma aquisição para o nosso repertório e que fazemos questão de dar a conhecer daqui para a frente.

Todas as palavras são poucas quando se está perante um projecto desta natureza, o de dar a conhecer a um português de Malaca algumas representações deste país ou chão que foi de seus antecessores, há 500 anos partidos para o oriente e ao longo dos tempos renovados por outros.

Este projecto e esta associação Coração em Malaca tem uma persistente líder, uma espécie de alma da história que quer neste presente reintegrar todo o passado. Luísa Timóteo é uma torrente de entusiasmo, uma directriz de obras a fazer, uma vendaval de aproximações a tudo quanto possa transfigurar-nos, aumentar-nos a vontade, superar-nos o pessimismo.


Aqui está ela com o Jorge Duarte, afinal duas pedras cruciais das obras que os portugueses fazem e encontram e sonham pelos caminhos".

Depois deste testemunho, faço do José as minhas palavras e partilho com vocês uma fotografia enviada pelo Duque de Edimburgo, exposta na casa das irmãs do Sr. Padre Pintado.

A fotografia contém a seguinte legenda:
Malaca, 6-03-1972
"Ainda estais em Malaca?"
Duque de Edimburgo.


Obrigado a todos pela vossa colaboração e calorosa ecepção que tivemos em Freixo-de-Espada-à-Cinta e em Braga.

Até breve.

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